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Casual Auditores na Mídia
Veja - 28/12/2005
Retrospectiva 2005
...pegamos o juiz ladrão
Mas o futebol brasileiro ainda tem muitos problemas a enfrentar. O principal deles: sair do vermelho
André Fontenelle
Não era folclore. O juiz ladrão de carteirinha – que por muito tempo ocupou o panteão consagrado a personagens do imaginário popular, como a mula-sem-cabeça e o saci-pererê – revelou-se, no Brasil, de carne e osso. Uma reportagem publicada por VEJA em setembro deste ano mostrou como os árbitros Edilson Pereira de Carvalho e Paulo José Danelon se associaram a uma quadrilha de apostadores de loterias eletrônicas para fraudar resultados de jogos com o objetivo de lucrar com as apostas. A descoberta da máfia do apito ganhou manchetes de jornais no mundo inteiro e resultou no banimento dos árbitros, na anulação de onze partidas disputadas no Campeonato Brasileiro e no surgimento de uma metonímia: virou moda gritar "Edilson" nas arquibancadas toda vez que o juiz apita mal. O escândalo serviu para escancarar o amadorismo com que é administrado o futebol pentacampeão mundial. Afinal de contas, Edilson estava longe de ser um juiz acima de qualquer suspeita: já havia apresentado à Federação Paulista de Futebol (FPF) um falso diploma de conclusão do ensino médio (atitude que não lhe rendeu punição nenhuma) e entregava mensalmente à entidade notas frias para comprovar sua obrigatória renda extracampo (fato que, aparentemente, a FPF desconhecia). A incapacidade dos cartolas brasileiros de farejar suspeição em um árbitro que não estava à altura da função só não é maior do que a sua incompetência em tornar lucrativa uma atividade que, no Brasil, mobiliza quase 580 000 atletas, entre amadores e profissionais.
O futebol nacional enfrenta a mais grave crise financeira de sua história. Alguns fatores contribuíram para isso: em 1998, a Lei Pelé tirou dos clubes a propriedade sobre os jogadores, cortando a principal fonte de renda de muitos deles: a venda de craques. Mais tarde, em 2003, outra lei tornou obrigatória a publicação de balanços por parte das equipes, e tanto o Fisco quanto a Previdência passaram a reforçar a vigilância sobre a contabilidade dos times. As mudanças obrigaram os clubes a, pela primeira vez, prestar contas e equilibrar receitas e despesas – atividades nas quais se têm revelado um perfeito desastre. Um grande clube brasileiro fatura, em média, 40 milhões de reais por ano. É uma cifra ridícula se comparada à dos clubes europeus. O Manchester United, da Inglaterra, por exemplo, arrecada o equivalente a 900 milhões de reais por ano. É verdade que o poder aquisitivo do torcedor inglês é muito maior que o do brasileiro. Mas há que se lembrar de que o Brasil tem o triplo da população da Inglaterra, é uma fonte inesgotável de ótimos jogadores e foi cinco vezes campeão do mundo. "Por tudo isso, o futebol brasileiro poderia render muito mais", diz Carlos Aragaki, da Casual Auditores, responsável por um estudo inédito sobre as finanças dos clubes nacionais.
Os times brasileiros não sabem aproveitar de nenhuma forma seu potencial financeiro (veja quadro ao lado). Enquanto na Europa times como o espanhol Real Madrid têm mais de 800 produtos licenciados com sua marca, os clubes brasileiros deixam escorrer pelo ralo da pirataria milhões de reais que poderiam obter com a venda, bem administrada, das camisetas com seu escudo. Os times nacionais não são capazes de lucrar satisfatoriamente nem mesmo quando se trata de desempenhar a mais básica das atividades comerciais ligadas ao futebol: a venda de ingressos. Embora aqui um bilhete custe menos de um décimo do que custa na Europa, os poucos clubes que têm estádios próprios não conseguem uma taxa de ocupação maior do que 11%, em média – caso do Estádio do Morumbi, de propriedade do São Paulo. Na Europa, o bilhete custa em torno de 150 reais e os grandes estádios registram regularmente 100% de ocupação. Os europeus conseguem atrair um público maior e cobrar mais não apenas porque a população é mais rica, mas porque oferecem praças de esportes confortáveis, que fazem com que assistir a uma partida de futebol seja um programa seguro e agradável.

No Brasil, com os estádios caindo aos pedaços e a freqüência com que se registram incidentes de violência nos campos (só neste ano, sete torcedores morreram em conflitos), ver uma partida é quase um ato de bravura. Há exceções, no entanto. Seis anos atrás, o Atlético Paranaense construiu em Curitiba um campo-modelo: os corredores e banheiros são limpos, as lanchonetes bem-cuidadas, e o torcedor que vai de carro tem um estacionamento à sua disposição. Resultado: hoje, o clube pode cobrar um ingresso 70% mais caro do que a média dos estádios nacionais, e a boa imagem que construiu fez com que uma multinacional de fotocopiadoras se interessasse em batizar o estádio com seu nome – o que rendeu ao Atlético 1,5 milhão de dólares.
Há também o exemplo bem-sucedido dos maiores clubes paulistas, que desde a década de 90 têm investido em projetos de parcerias com a iniciativa privada, formação de jovens talentos do futebol e criação de centros de treinamento. Nos últimos dez anos, cinco títulos brasileiros e sete vice-campeonatos ficaram nas mãos desses times. A conquista, neste ano, por parte do São Paulo, da Taça Libertadores, principal torneio da América do Sul, e do Campeonato Mundial de Clubes, só vem reforçar a tese de que o sucesso de um clube e a sua eficiência fora do campo costumam caminhar juntos. Mas não há garantia de que essa visão mais profissional e capitalista tenha fincado raízes profundas entre os paulistas. Veja-se o caso do Corinthians. O clube recebeu uma injeção de dinheiro no fim do ano passado, quando o misterioso consórcio de investidores MSI, capitaneado pelo iraniano Kia Joorabchian, comprou o seu departamento de futebol. A MSI gastou 140 milhões de reais para montar o esquadrão mais caro do Brasil. "Alguém tinha de correr o risco de montar um supertime", diz Joorabchian. Desde então, o clube conquistou o Campeonato Brasileiro, o faturamento do Corinthians com bilheteria duplicou e novos patrocínios foram negociados. A torcida corintiana está feliz por ora, mas o problema é que, ao entregar as decisões a investidores anônimos, o clube entrou numa zona de sombra. Assim como a MSI surgiu do nada, pode ir embora da noite para o dia, deixando o clube na penúria em que se encontrava antes
O Brasil é, até agora, o único candidato a sediar a Copa do Mundo de 2014. O item mais caro do evento é a construção de novos estádios e a reforma dos já existentes. Na Alemanha, anfitriã do próximo campeonato, os dois principais clubes de Munique, o Bayern e o TSV 1860, dividiram os 800 milhões de reais gastos na construção do Allianz Arena, palco do jogo de abertura do Mundial. Trata-se, sobretudo, de um bom negócio, já que, encerrada a Copa, o estádio de 66.000 espectadores estará disponível para abrigar espetáculos diversos. No Brasil, essa experiência seria impossível. Isso porque os falidos clubes nacionais – muitos dos quais são forçados a jogar em estádios municipais e estaduais, já que não possuem nem sequer campo próprio – têm uma preocupação mais urgente no momento: sair do vermelho. É estarrecedor que, num país que possui os melhores craques, as maiores torcidas e os mais importantes títulos, o futebol seja tratado como um negócio de fundo de quintal – um quintal em que convivem cartolas incompetentes, jogadores insatisfeitos e juízes, quando não ruins, ladrões.


